Potato Cat – Bastidores #03

Analógico vs. Digital!

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Neste “Bastidores”, o simpático e humilde Gato Batata, que sou eu, traz até a você um pouco do debate sobre a escolha de plataforma para se produzir um jogo.

Lição aprendida: Toda ideia de jogo pode ser adaptada para PCs ou para mesas, mas será que todos da sua equipe são bons produzindo para as duas plataformas? Vale muito a pena atentar-se às habilidades de seus companheiros desenvolvedores na hora de bater o martelo a respeito disso.

Dica do Gato: Tome cuidado para não desvalorizar a sua ideia. Ela pode ser realmente boa, mas dependendo da forma que for aplicada, pode acabar se transformando em algo muito diferente daquilo que ela “nasceu para ser”. Mas lembre-se: o problema não é a mudança, mas sim a perda da essência que de fato deveria ser transmitida com a ideia.

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Desenvolver um jogo é algo tão desafiante quanto recompensante. Existem muitos elementos com os quais os game designers têm que se preocupar para fazer algo divertido e uma das análises mais interessantes cai sobre a plataforma do jogo.

Interpretaremos a palavra “plataforma” como onde o jogo será jogado. Não sei se você sabe, mas o Gato Batata e seus companheiros trabalham não só com jogos de cartas físicas, mas também têm alguns jogos mobile e de computador a serem produzidos.

Mas antes de adentrarmos nessa discussão, vamos somente deixar claro uma coisa: Por que chamamos de jogos “analógicos” e jogos “digitais”?

Para algumas pessoas, essa distinção não é tão clara, e talvez nem devesse ser. No sentido mais absoluto das palavras, analógico é aquilo que não pode ser mensurado, algo que acontece em valores infinitos ou irreais. Uma música ao vivo nunca é 100% parecida com sua reprodução digital, por exemplo. Logo, deveríamos entender que o digital é tudo aquilo que podemos definir de forma absoluta, com zeros e uns, com um valor único e preciso.

Se fôssemos tomar esses conceitos como padrões, jogos de cartas de plástico poderiam muito bem ser digitais. Se você compara uma carta com a outra, o resultado é binário, ou ela é igual, ou não é. Ou ela é mais forte, ou é mais fraca.  Ou é 1, ou é 0. Mas, para o incômodo de alguns que se atêm ao sentido literal das palavras, não é esse sentido que adotaremos.

Acontece que o digital passou a ser culturalmente associado às máquinas, aos computadores e celulares, e o análogico tornou-se sinônimo daquilo que não é virtual e não utiliza da tecnologia eletro / eletrônica para funcionar. Muitas vezes, o sentido cultural torna-se mais relevante que o literal. Não adianta nada você se referir ao sal de cozinha sempre como NaCl se as pessoas às quais você fala não entendem nada de química.

Por isso, entenderemos como analógico todo “jogo de mesa” (do termo inglês: tabletop games), e digital será aquele que funciona como software, como uma aplicação dentro de uma máquina. Certo? Então vamos lá.

Existem algumas grandes diferenças entre planejar um jogo digital e um jogo analógico. Enquanto de um lado você se preocupa com a lógica e a tecnologia, do outro você se preocupa com a quantidade de peças ou até mesmo a quantidade de informações nas cartas. São estratégias e pensamentos bem diferentes, porém nenhum é mais difícil do que o outro, pelo menos não na concepção.

Muitas vezes, cheguei a encontrar desenvolvedores que tinham a terrível dúvida: eu faço esse jogo analógico ou digital? E essa pode ser uma dúvida bem pertinente que, para ser respondida, precisa de uma profunda análise sobre os componentes do jogo.

Num geral, qualquer ideia de uma mídia pode ser transportada para outra. No entanto, muitas vezes, diversos elementos precisam ser modificados para que façam sentido na nova mídia.

Veja nosso Vengeance et Gratitude, por exemplo. Sua ideia inicial partiu do conto Barril de Amontillado, de Edgar Allan Poe, que tem como mote principal a vingança em sua essência e modo de execução. E foi essa mesma sensação de vingança e traição que quisemos passar no jogo. Não queríamos que a temática fosse somente um adorno. Queríamos que as pessoas realmente quisessem se vingar umas das outras, que elas sentíssem a raiva que motiva a vingança e o alívio de sua execução bem sucedida.

Para isso, as peças, as cartas, a simplicidade e a mecânica foram pensadas de modo a forçar o jogador a ter atitudes sociais diversas. Criar (falsas) alianças, trair, ameaçar, entre outras ações “saudáveis” desse tipo.

A produção de um jogo com a mesma temática e mesma motivação, porém digital, traria, com certeza, elementos totalmente diferentes. Muitos jogos online de FPS, por exemplo, já trazem a ideia de vingança ao beneficiar o jogador que elimina seu último assassino no jogo.

Mas se qualquer ideia pode ser levada para PCs ou para mesas, como escolher então?

Aí devemos avaliar algumas coisas não tão óbvias do jogo. Por exemplo, existem algumas ideias que nascem de determinados elementos. Elementos insubstituíveis e que, quando convertidos para a outra plataforma, podem não trazer a mesma sensação inicial. Tomando um jogo de cartas por exemplo, a jogabilidade digital pode não ser tão agradável quanto a analógica, pelo simples fato de que o primeiro imita explicitamente o segundo.

Outra característica a ser levada em consideração é o público alvo e, de certa forma, os mercados que envolvem as plataformas e os temas escolhidos. Se o jogo é feito para ser jogado em família, ele raramente será um MMORPG complexo e bem imersivo.

Mas nada disso é obrigatório, não é? A ideia inicial que te faz criar o jogo pode não estar atrelada a determinadas mecânicas, muito menos a um tipo de público. Então o que levar em consideração? A arte.

Não a arte visual do jogo, como a imagem das cartas ou os sprites de um personagem. Vamos um pouco mais além. Estamos falando aqui da obra de arte que é o jogo em si. E quando se fala em arte, fala-se também de motivação, feeling e intenção. Coisas sutís que acabam te levando a produzir em uma plataforma ou outra.

E falando em “feeling”, que é a sensação que procura-se transmitir na obra, não vamos nos esquecer que o digital e o analógico têm suas limitações e benefícios ao jogador.

Jogadores geralmente não buscam em jogos analógicos, por exemplo, por contas matemáticas complicadas, mecânicas fáceis de ser burladas, regras complexas demais para serem lembradas, ou dilemas banais que servem simplesmente para carregar uma linda arte nas cartas. Por outro lado, jogos digitais são limitados àquilo que seus programadores fazem, aos inputs de hardware, à tecnologia que os transportam.

“Então o que eu devo fazer?”, você pode estar se perguntando, mas a resposta não é assim tão definitiva. A ideia é que você saiba o que levar em consideração, não que faça algo de uma forma determinada sempre. Afinal, jogos são arte, e a arte não é uma definição, e sim um conceito.

“E por que o Gato Batata começou sua jornada produzindo somente jogos analógicos?”, pode ser uma outra pergunta pertinente. Bem, é mais simples do que parece. Digamos que Senhor e Senhora Meow não são, assim, exímios programadores. E digamos assim que eles ainda não encontraram pessoas tão dispostas para resolverem esse problema. Mas as idéias dos jogos existem e já estão prontas para serem executadas! Só falta um pouco de estrutura técnica.

Além disso, vale lembrar que acabamos nos envolvendo com Enéias Tavares e a Brasiliana Steampunk com a produção do Cartas A Vapor, um jogo analógico que tem tomado bastante nossa atenção. Por isso, não nos sobrou lá muito tempo para corrermos atrás de programadores que gostam tanto de batatas, gatos e jogos quanto nós. Mas tudo bem! Um passo de cada vez, não é?

E quem sabe, enquanto você navega pelo facebook e pelo nosso site, você não se depara com uma novidade quentinha sobre um jogo digital da Potato Cat que vem por aí? Para isso, não se esqueça de curtir nossa página e ficar ligado aqui no blog!

Bem, por hoje é só. A gente se vê pelas batatas da vida, certo?

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Publicado por

Potato Cat

Olá! Eu sou um gato. E uma batata. E também uma empresa de jogos. Leia um pouco do conteúdo desse blog e certamente você saberá bem mais sobre mim ;)

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