Cartas a Vapor – DevLog #06

A Arte de Ensinar

—–

Existem muitas coisas simples nesse mundo, mas isso não quer dizer que você conseguirá explicá-las facilmente. Neste DevLog, o gato batata mais delicioso que já existiu neste planeta, que sou eu, conta um pouco a respeito do processo de ensinar um jogo, seja pessoalmente, seja por manuais e afins.

Lição Aprendida: Cada pessoa tem uma linguagem. E isso sem nem entrar no assunto de idiomas. É necessário estudar esses diversos tipos de linguagens se você pretende produzir um material próprio para qualquer jogador. Afinal, de que adianta ter em mãos um jogo incrível se ninguém consegue aprender a jogá-lo?

Dica do Gato: Quando for testar o manual de seu jogo, entregue-o a um jogador que nunca teve contato com sua obra. Em seguida, peça para que ele conduza completamente a partida e tente (se esforce muito mesmo) não intervir e corrigir aquilo que ele interpretou como regra do jogo. Você irá se surpreender com o resultado e, provavelmente, terá que fazer alguns ajustes no livro de regras.

—–

Muita coisa mudou desde o início da construção das engrenagens e dos autômatos de Cartas a Vapor, e um grande exemplo disso somos nós mesmos. Aprendemos a melhorar protótipos, filtrar resultados de playtests, conversar com a equipe e passar conceitos para outras áreas do processo de produção, e, um dos truques mais complicados e importantes, fazer com que as pessoas entendam do que se trata nosso jogo.

Como já tenho dito no decorrer de nossos devlogs, o Cartas a Vapor tem a missão de possuir uma gama extensa de elementos e, ao mesmo tempo, ser simples. Acontece que esses conceitos não parecem se misturar muito bem quando analisados pela primeira vez. Geralmente, um novo jogador tem que jogar uma ou duas rodadas para entender 100% a mecânica e dizer, como sempre dizem, “Uau! Parecia muito mais difícil e complexo do que eu imaginava!”.

Até agora, não sei ao certo se isso é bom ou ruim.

É ruim porque, quando o jogador tem seu primeiro contato com o jogo, ele arregala os olhos e fica um pouco assustado. É necessário um pouco de cuidado com as palavras para fazê-lo acreditar que tudo o que ele está vendo é na verdade muito simples. E é bom porque, bem, conseguimos um jogo simples no final das contas! Simples, porém com dilemas e com a possibilidade de estratégias variadas.

Mas, apesar da mecânica em si ser relativamente simples, a impressão do jogador é muito afetada pelo intermediário que lhe ensina a jogar. Isto é, ele precisa ou de um bom manual, ou de um bom jogador que consiga ensinar. E, meu caro humano, foi um árduo processo até esse Gato Batata aqui conseguir intermediários bons para os jogadores.

Vamos começar pela pessoa que ensina. Para ela, não basta saber de todas as regras. Não basta ter jogado o Cartas a Vapor 1240 vezes. Ela precisa ter um roteiro mental de coisas para ensinar e saber mudar seu discurso quantas vezes for necessário, uma vez que cada pessoa fala e entende de um jeito.

A princípio, convidamos o grande Víctor Silva, um de nossos amigos que ajudou Senhor & Senhora Meow a terem a ideia de me criar, a ser o nosso “Explicador Oficial de Regras”. Foi ele que introduziu meus pais ao verdadeiro e profundo mundo dos jogos de mesa modernos, com suas explicações sempre precisas e bem feitas. Seu pagamento foi nosso eterno amor e carinho, mas esperamos um dia começar um super projeto com ele, que vai ser legal pra caramba.

Enfim, onde estava? Ah, é, o explicador. Algumas pessoas simplesmente têm o dom de explicar jogos, livros, filmes, ideias, conceitos e tudo o que você pode imaginar. Muitas vezes, você, como desenvolvedor de jogos, precisa aprender essa lábia dos explicadores. E, como esse processo de aprendizado pode demorar, é recomendado conseguir um bom amigo explicador para levar consigo para eventos e jogatinas.

Hoje, Senhor & Senhora Meow estão muito melhores na apresentação do jogo! E isso aumentou, e muito, a performance dos jogadores novos, diminuindo o tempo de aprendizado. Mas não foi algo do dia para noite. Lembre-se que estamos desenvolvendo e testando esse jogo há um bom tempo.

Outro fator importante que não podemos deixar de lado é o manual do jogo.

Confeccionar um manual é algo um tanto complicado, mas é importantíssimo. Afinal, mesmo o melhor dos explicadores pode esquecer uma regra ou se deparar com um evento super raro às vezes. Isso acontece, é normal no mundo dos jogos. Por isso, é necessário um manual que seja preciso, leve e sem falhas.

O grande problema aqui talvez seja o fato de que quem faz o manual já sabe jogar. Ele precisa fingir que esqueceu completamente o jogo e adaptar seu discurso de apresentação para algo que não deixe margem de dúvidas e possa ser compreendido por qualquer um.

Já tivemos 2 manuais antes desse que, talvez, ainda iremos mudar. O primeiro tinha muitos buracos na explicação, enquanto o segundo não tinha uma boa organização de informações, apesar de conter todos os elementos. Por fim, temos medo de nosso atual manual estar muito grande, pois dessa vez tentamos explicar tudo o máximo possível, o que, somado às imagens exemplos, pode fazer o jogador se perder.

Outra coisa terrível a respeito dos manuais é que você só pode testá-los uma vez por jogador. Isso porque, depois do teste, você acabará precisando explicar algo que ele não entendeu e, no final, ele irá aprender o jogo, não se encaixando mais no quesito “não sei jogar”. Então, a menos que seu jogo seja muito simples de se entender e se explicar, o que não é totalmente o caso do Cartas a Vapor pelos motivos já apresentados neste DevLog, você precisará de uma extensa lista de amigos, ou de um ótimo trabalho na escrita.

Uma coisa que você pode não saber, é que Senhor & Senhora Meow são também escritores entusiastas desde muito tempo atrás. Aliás, são também game designers e, por isso, precisam ser bons em explicar conceitos de jogos. Nessa brincadeira, já revisaram livros e foram redatores de manuais de outros jogos. E, ainda assim, o manual do Cartas a Vapor foi um desafio! Dá para acreditar?

Mas isso não é tudo. Muitos jogos modernos contam com os chamados “mini-manuais”. Geralmente são pequenos, com informações precisas e resumidas dos dois lados, para auxiliar aqueles jogadores que esqueceram de uma regra ou outra. É essencial para jogos que, como o nosso, têm muitos elementos.

A dificuldade de criar um mini-manual, no entanto, é bem diferente da de criar o livro de regras maior. Nesse caso, é preciso estar um passo a frente, é preciso pensar nos aspectos de seu jogo que são cruciais e resumí-los com palavras objetivas e claras.

Muitos jogos, geralmente os mais simples em relação à mecânica, conseguem reunir essas informações numa simples carta de baralho. Outros, como o Race for the Galaxy, podem ter mini-manuais do tamanho da caixa do jogo. E alguns, ainda, podem simplesmente não tem mini-manual algum. Tudo isso varia e precisa ser muito bem estudado para cada caso.

Como o Cartas a Vapor tem como característica o fato de ser feito inteiramente de cartas, e considerando a grande quantidade de elementos no jogo, acredito que seja fácil entender nossa dificuldade em sintetizar esse mini-manual. Para falar a verdade, ainda estamos tentando fazê-lo até hoje! Mas acreditamos que conseguiremos um resultado de qualidade em breve.

E no final de tanto planejamento e tanto esforço, como saber se seu trabalho duro deu certo? Bem, não existe um método específico para isso, mas nós gostamos de fazer dois testes:

  1. O Teste da “Mãe” – Minhas avós não costumam jogar muito, sabe? Então, para saber se nossa apresentação do jogo está boa, tentamos ensiná-las a jogar nossos jogos. Se você quer ter certeza de que seu jogo está simples e compreensível, teste com alguém que geralmente não está em contato com o mundo dos jogos. É bem diferente do que ensinar um jogo a um jogador hardcore, vai por mim.
  2. O Teste do “Jogo Novo” – Entregue seu jogo fechado para um amigo e diga: ‘Você acabou de comprar esse jogo e ninguém aqui sabe jogá-lo, então leia o manual e nos ensine a jogar’. É claro que você sabe jogar, mas a ideia aqui é não corrigi-lo mesmo que ele interprete algum texto de forma errada. Isso é essencial para saber se completos novatos no universo do jogo conseguem entendê-lo perfeitamente.

E talvez agora você deva estar um pouco curioso a respeito de como está ficando nosso manual, não é mesmo? Pois bem! Pretendemos compartilhá-lo publicamente no Ludopedia em breve, então fique atento às novidades! Caso você não conheça esse portal, vale muito a pena acessá-lo para conhecer mais sobre os mais variados títulos de jogos de tabuleiro de todos os tempos! Além de manuais oficiais, lá você poderá encontrar uma ativa comunidade, discussões sobre jogos, vídeos explicativos, notícias e muito mais.

Para saber quando iremos postar mais novidades sobre o manual e sobre o Cartas a Vapor, não deixe de curtir nossa página no Facebook e também a página da Brasiliana Steampunk.

Anúncios

Publicado por

Potato Cat

Olá! Eu sou um gato. E uma batata. E também uma empresa de jogos. Leia um pouco do conteúdo desse blog e certamente você saberá bem mais sobre mim ;)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s