Vengeance et Gratitude – DevLog #01

Traduzindo a Vingança

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A noite sombria de uma Páscoa escura traz até você, através de seu humilde tubérculo-servo, o Gato Batata, um primeiro vislumbre sobre um dos projetos da Potato Cat que está em vias de receber a vida. Isto mesmo, senhora ou senhor, eu lhe apresento, neste DevLog, Vengeance et Gratitude, um party game cheio de surpresas e reviravoltas.

Lição Aprendida: A tradução não se resume apenas a textos, mas a outras formas midiáticas e até mesmo aos sentimentos. O artista traduz diariamente aquilo que o homem sente, e o jogo traduz a cada partida aquilo que o homem gostaria de sentir.

Dica do Gato: Devagar e sempre. Mesmo que um projeto tome a maior parte de seu tempo e sua atenção, sempre tenha ideias guardadas na gaveta para trabalhar quando houver uma brecha. No final, o resultado poderá ser surpreendentemente bom.

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Eu ainda era um bebê quando meus pais, Senhor & Senhora Meow, embarcaram numa viagem rumo ao universo gótico e fantástico de Edgar Allan Poe. O que nós tínhamos na época? Algumas ideias de um jogo com temática de cinema thrash americano, um projeto acadêmico de um jogo de tabuleiro que poderia ser utilizado para aprender sobre narrativas e servir para qualquer temática, e alguns trabalhos escolares desenvolvidos razoavelmente. Foi nessa época também que Senhora Meow, depois de muita insistência de seu companheiro, terminou de ler A Lição de Anatomia do Temível Doutor Louison, livro que seria o incentivo principal para a criação do Cartas a Vapor.

Uma época de muitas ideias e poucas realizações. Onde o rumo de tudo estava para mudar.

Como forma de complementar nossos estudos extracurriculares, decidimos participar do curso de criação de jogos de tabuleiro baseado em obras de Edgar A. Poe, o “Ludens Poe”. Ministrado pelo excelente professor Luiz B. Carneiro no anexo do museu Casa Guilherme de Almeida, o foco do curso, como deveríamos esperar do local onde iríamos cursá-lo, era a tradução.

Existem diversas formas de traduzir, sabe? Você pode mudar o idioma original de um texto, ou transformar um livro em um filme, ou enxergar o que antes era gótico sob uma temática steampunk. Isso tudo é tradução. Tradução literal, adaptação, transluciferação mefistofáustica… É um mundo muito maior do que imaginamos a princípio.

No curso, tivemos como atividade prática a tarefa de criarmos, em grupos de quantas pessoas quiséssemos, um jogo inspirado na obra Barril de Amontillado, do grande Poe. Uma obra cheia de pequenos detalhes e fortes sentimentos. Como de costume, Senhor & Senhora Meow juntaram-se em dupla e começaram a trabalhar imediatamente.

Durante aquelas semanas, meu Pai estava jogando um card game um tanto quanto singular, chamado Shift. Trata-se de um jogo de cartas onde você só usa uma carta e cinco moedas, nada mais, nada menos. E foi justamente por causa dessa ideia de moedas que o projeto do curso adquiriu tokens como um de seus elementos.

Em seguida, precisávamos decidir qual parte do conto seria o ponto central do jogo, a conexão mais forte entre o universo textual do Barril de Amontillado e o novo universo que iríamos criar. Não tardou muito para o tema “Vingança” destacar-se entre os demais.

Mas a vingança, meus caros amigos bípedes, pode se manifestar de diversas formas. Fica claro dizer que é vingança quando um homem apunhala pelas costas aquele que outrora lhe apunhalou, mas é também vingança quando você ajuda aquele que sempre lhe foi amigo. Gratidão é a vingança dos bons atos. E por que não retratar isso também no jogo?

Por fim, havia mais um objetivo que queríamos atingir quanto ao jogo: queríamos que a vingança transcendesse o tema. Queríamos que o jogador pudesse se sentir traído e, também, tivesse a oportunidade de trair. Queríamos que o desejo e o ato de vingança se manifestasse também no jogador, e não somente no jogo. Esse foi o toque especial que deu forma ao Vengeance et Gratitude.

O jogo, como foi concebido, não implica na existência de somente um ganhador. Aliás, não implica na existência de ganhador algum. O resultado de uma partida pode ser o de vitória para metade dos jogadores, ou de derrota para todos. Tudo depende da forma como se dão as interações entre todos.

A ideia é simples. Cada pessoa possui um alvo. Um alvo que não se lembra das atrocidades que cometeu, uma vez que “Quem bate esquece, mas quem apanha não”. No entanto, se todos simplesmente atacarem seus alvos, no último turno, todos estarão mortos. Dessa forma, torna-se necessário fazer aliados ou então colocar jogadores uns contra os outros. Mas, muito cuidado com os amigos que você faz, pois você pode acabar empoderando aquele que tem você como alvo e acabar traído, amargo e, bem, morto.

É um conceito bonito e feliz para um jogo, não acha? Pessoas em seu melhor momento, em sua melhor virtude, em sua melhor forma de torturar antes de matar.

Calma, amigo, eu falei brincando. Mas, certamente, é um jogo interessante para se jogar em um grupo de amigos, principalmente se você é daquele tipo de pessoa que adora ver o circo pegando fogo.

E o que aconteceu depois que criamos a ideia do jogo? Protótipos!

Reunimos aproximadamente 98 moedas de 5 centavos, passamos fita crepe em todas, pintamos metade, criamos fichas de personagens, fichas de alvos e, no fim, tínhamos um bom protótipo para o fim do curso.

É claro que as moedas pintadas manchavam as mãos de todos que jogavam, mas esse é o preço a se pagar quando se está descobrindo formas de criar protótipos. E é claro que tivemos alguns probleminhas com os conceitos iniciais do jogo, no entanto, para o objetivo do curso, aquilo já estava de bom tamanho.

No final das contas, Enéias Tavares, autor do Brasiliana Steampunk, se mostrou interessado por nossas ideias de jogos e, por conta disso, acabamos abandonando temporariamente o Vengeance (como foi carinhosamente apelidado). De vez em quando, é claro, acabávamos trabalhando nele, para ajustar algumas coisas que não conseguimos definir em sua primeira versão. E, muito embora pareça pouco trabalhar eventualmente em um jogo, esses pequenos ajustes deixaram ele bem acabado e, hoje, em estágios finais de desenvolvimento.

Agora o Cartas a Vapor está bem próximo de se completar, o que nos deu um fôlego a mais para mexermos no Vengeance e para chamarmos a talentosa Jéssica Lang para trabalhar conosco. Sua missão consiste em retratar sete personagens de Edgar Allan Poe, na temática do jogo e no espírito dos sete pecados.

Se você ficou curioso para ver como isto está ficando, então fique atento para novidades em nossa página do Facebook e aqui no blog também! Em breve, a noite lhe trará imagens das quais nunca se esquecerá.

E se você gosta das obras do Poe ou tem curiosidade de apreciá-las, fica aqui nossa humilde sugestão literária: Steampunk Poe, um achado artístico que reimagina os contos góticos de Edgar sob a temática steampunk. As imagens são lindas e os temas se encaixam muito bem. Aliás, é bem possível que você encontre, somente nesse livro, pelo menos dois personagens que estarão no Vengeance et Gratitude. Curioso como um gato? Aposto que sim. Então boa leitura! E, ah, uma ótima Páscoa também!

SteampunkPoe.jpg

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Publicado por

Potato Cat

Olá! Eu sou um gato. E uma batata. E também uma empresa de jogos. Leia um pouco do conteúdo desse blog e certamente você saberá bem mais sobre mim ;)

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