Cartas a Vapor – DevLog #01

O Primeiro Contato

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Neste DevLog, vosso Humilde Narrador, o Gato Batata, conta como foi sua primeira experiência ao tentar criar um jogo para a Brasiliana Steampunk e como se deu este primeiro contato.

Lição aprendida: Ideias nunca são demais. Se você achou algo muito bom e quer produzir sobre ele, não se restrinja a apenas uma.
Dica do Gato: Já pensou algo do tipo “Até parece que eles vão ligar para a minha ideia”? Pois pode parar de pensar. Você não tem nada a perder, e talvez tenha algo muito grande a ganhar.
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“Eu costumo começar muitos livros, mas são poucos os que eu consigo terminar”, dizia Senhor Meow, meu pai e criador. A verdade é que, quando li A Lição de Anatomia do Temível Doutor Louison, percebi que ele é mesmo um livro à parte.

Eu não gosto de histórias clichês, mas essa com certeza foge do padrão. Não é só porque a história se passa em um cenário retrofuturista, ou porque autômatos e humanos dividem o mesmo espaço. Desde a forma que os textos são narrados até a evolução dos personagens na trama, este livro faz qualquer um ter ideias. E é claro que eu tive as minhas.

Não é culpa minha se o autor do livro, meu amigo Enéias Tavares, fez magias absurdas com suas palavras. Depois de ler o livro, meus dias e noites foram sempre acompanhados de pensamentos cada vez mais profundos sobre “eu preciso fazer algo a respeito desse livro, desse universo. Eu preciso dar ainda mais vida à esses personagens tão encantadores!” Até que um dia, eu não resisti à ideia de criar um jogo.

O universo do Brasiliana Steampunk – assim é chamada a organização por trás da criação do livro – é riquíssimo. O difícil, caros leitores humanos, não foi criar um jogo, mas sim conter as inúmeras concepções dos mais variados tipos de jogos de mesa que conseguimos pensar.

Mas, para nos organizarmos, e também para não começar a sonhar demais com um futuro incerto, focamos nossos esforços e nossa imaginação em três ideias que nos pareceram mais promissoras.

Mais acostumados com o analógico do que com telas digitais, o que queríamos era um jogo que se pudesse jogar em grupos grandes e que as pessoas pudessem interagir entre si enquanto cartas num tabuleiro fossem dando ritmo à diversão.

O primeiro e mais trabalhado dos jogos, intitulado “Chronos”, contaria capítulos inéditos do Brasiliana através de partidas cooperativas onde os jogadores tinham que trocar cartas de cronogramas entre si. A ideia principal era que ninguém poderia saber qual personagem pertencia aos demais jogadores e, de acordo com a entrega de cronogramas, que deveriam ficar nas mãos de personagens específicos, essas informações iriam ficando mais claras. Haviam diversas formas de realizar partes do mesmo cronograma, mas apenas algumas poderiam trazer sucesso a todos os jogadores.

Chegamos a planejar um cronograma completo e, quando eu digo planejar, bote planejamento nisso. Passamos dias estudando os personagens e o conto “Bento Alves & o Assalto ao Templo Positivista” para, com muito esforço, bolarmos o cronograma dos heróis para realizarem sua grande façanha. Foi um trabalho bem delicado, pois tínhamos que deixar diversas possibilidades para que, por exemplo, dois ou mais personagens pudessem realizar a mesma ação. Além disso, criamos dois outros finais para a mesma história, simulando o que poderia ter acontecido no decorrer da trama caso certos erros no planejamento tivessem acontecido. O resultado ficou bem intrigante, mas confesso que ficamos assustados com a possibilidade de termos que fazer tudo aquilo de novo e com a mesma maestria para diversas outras missões. Ah, sim, a ideia precisava que criássemos muitas outras.

O segundo jogo já tinha um clima mais imaginativo, uma ideia mais destinada para incentivar a criatividade dos jogadores. Baseado nas lindas cartas de Tarot feitas para o Brasiliana Steampunk, com artes de Marcus Lorenzet e concepção de Raul Cândido, pensamos num jogo onde os jogadores tivessem que adivinhar seus próprios personagens. Como fariam isso? Através de previsões e descrições dadas pelo cartomante, que seria um dos jogadores, sobre as cartas de Tarot que seriam viradas do baralho.

O terceiro, mas não menos querido dos jogos, tratava-se de uma nova concepção para o jogo “Detetive”, com cartas de armadilha, fluxo maior de movimentos e tendo como protagonistas o Assassino da Nata e o Inspetor Policial do primeiro romance da série. O cenário seria, é claro, a encantadora Porto Alegre dos Amantes, e tínhamos algumas influências de jogos como Nosferatu e Interpol para nos ajudar.

Depois de pensadas e repensadas, essas ideias foram bem documentadas e enviadas para Enéias, que até então nada conhecia de nossa existência.

Tivemos medo do que poderia acontecer. Somos uma família de estranhos, não temos outros trabalhos no mercado e certamente não estávamos oferecendo o produto que Brasiliana Steampunk mais buscava.

Todavia e surpreendentemente, a resposta que recebemos foi tão imediata e empolgante que mal pudemos acreditar.

Logo de cara, Enéias muito nos agradou com sua personalidade. Tudo bem, ele tem aquele seu cachorro-guarda-bengala de estimação, e eu não vou com a cara nem com os rosnados dele, mas naquela época (e agora também), isso estava longe de um problema. Tanto sua cordialidade em conversar conosco, quanto sua animação e confiança depositadas em nós foram grandes fatores para que levássemos a ideia adiante.

E com todas essas ideias de jogos, você pode imaginar qual ele preferiu explorar? Ou melhor, se você fosse Enéias, e tendo essas pequenas descrições em mente, qual você escolheria? (Não deixe de comentar nesse post ou nos mandar uma mensagem em nossa página do Facebook!)

Bem, ele não escolheu nenhuma. NENHUMA! Acredita?

Pois é, mas não foi tão “de uma vez” como acabo de dizer. Deixe-me explicar.

O que aconteceu foi que nos reunimos duas vezes em São Paulo, uma aproveitando sua vinda de Porto Alegre à cidade para tratar de assuntos sabe-se lá com quem, outra foi num interessantíssimo evento steampunk organizado pelo Conselho Steampunk em Paranapiacaba, a SteamCon.

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Esse aí na esquerda é o Senhor Meow, meu querido pai. E o da direita é o estilosíssimo Enéias Tavares, autor do Brasiliana Steampunk. Foto em uma das estações de metrô da Paulista depois de seu primeiro encontro.

Em nosso primeiro encontro ele já disse estar bem animado com a ideia de produzirmos um jogo, mas estava igualmente receoso com as mecânicas que havíamos lhe apresentado. Veja bem, não é todo dia que um escritor é jogado no universo dos jogos de mesa modernos, e, por isso, nossa missão naquele dia foi introduzir-lhe a este mundo.

Depois disso, tivemos muitas lições de casa até nos encontrarmos novamente na SteamCon. Pensamos em mil e uma mecânicas, o que resultou num jogo que misturava Blackjack (o famoso vinte e um), Hanabi e robôs gigantes (apesar desse último não ser um jogo).

E… Não. Não era isso que Éneias havia pensado para o Brasiliana Steampunk. Felizmente, dessa vez, nós não fomos os únicos que pensaram a respeito do jogo, e ele tinha uma ideia. Uma ideia que mudaria nossas vidas.

Ele nos disse:

“Eu quero um jogo feito somente com cartas, onde o jogador possa interpretar personagens, visitar cenários do romance, utilizar ferramentas steampunk e, acima disso tudo, tenha uma experiência nova toda vez que se sentar à mesa para jogar”.

Mais pensativos do que uma batata madura diante de tais requisições, caminhamos cabisbaixos até um banco qualquer de uma praça qualquer de uma Paranapiacaba  qualquer – quer dizer, na verdade essa daí é a única que existe – e, olhando profundamente para o vasto horizonte cheio de neblina, nos perguntamos:

“E agora?”

Publicado por

Potato Cat

Olá! Eu sou um gato. E uma batata. E também uma empresa de jogos. Leia um pouco do conteúdo desse blog e certamente você saberá bem mais sobre mim ;)

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